segunda-feira, 23 de maio de 2016

MICROCEFALIA: ANTES E DEPOIS DO ZIKA VÍRUS

Embora não tenha cura, os problemas de desenvolvimento em crianças com crescimento do cérebro abaixo do normal podem ser amenizados com estimulação motora, visual e outras práticas nos primeiros anos de vida. E, diante do aumento no número de casos, a rede pública intensifica a formação de profissionais e equipa locais especializados para prestar atendimento. Palavrinha difícil e até pouco tempo atrás praticamente desconhecida da grande maioria dos brasileiros, a microcefalia ganhou as manchetes dos jornais, ao redor do mundo, no final de 2014, quando passou-se a suspeitar que o aumento da incidência do vírus Zika, em especial no Brasil, estava diretamente relacionado ao crescimento no número de casos de bebês nascidos com cérebro menor que o normal.
O pânico que desde então vem tomando conta dos casais, principalmente dos "grávidos" ou com intenção de engravidar, se justifica. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde, de outubro do ano passado a março deste ano, foram confirmados 745 casos de microcefalia e outras alterações do sistema nervoso sugestivas de infecção congênita no País. Destes, 88 casos estão ligados à infecção pelo Zika Vírus.
Mas é preciso deixar claro que essa anomalia neurológica pode acontecer por diversas causas. "O fato de a mãe contrair o vírus Zika, que é transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti, é apenas uma delas", diz a Profa. Dra. Marilisa Guerreiro, neurologista, Professora Titular e Chefe da Disciplina de Neurologia Infantil da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
Ela explica que a microcefalia pode ocorrer também por fatores genéticos, como a Síndrome de Down ou a má formação do sistema nervoso central, ou externos, entre os quais a radiação, uso de drogas, consumo de álcool e doenças como rubéola, toxoplasmose, fenilcetonúria materna e desnutrição. "Se a causa da doença for genética, é possível preveni-la. Por isso é importante fazer o aconselhamento genético antes de engravidar", alerta a médica.
A microcefalia normalmente é diagnosticada no início da vida e acontece quando o cérebro não cresce o suficiente durante a gestação ou após o nascimento. Em 90% dos casos, crianças com essa anomalia têm problemas de desenvolvimento, apresentando déficit intelectual, atraso nas funções motoras e de fala, distorções faciais e nanismo ou baixa estatura. Em alguns casos, são hiperativas e desenvolvem epilepsia e dificuldades de coordenação e equilíbrio. "Mesmo assim" - diz a neurologista - "podem não apresentar problemas de aprendizado".
Para melhorar o desenvolvimento e aumentar a qualidade de vida de quem tem microcefalia os médicos recomendam tratamentos como fisioterapia e terapia ocupacional, que vão estimular a parte motora, visual e de fala. O ideal é que essa estimulação seja feita até os três anos de idade, período em que a criança tem maior facilidade em responder aos estímulos. "Por exemplo, em uma criança com deficiência visual é possível fazer a estimulação a partir do uso de objetos luminosos em local escuro e também coloca-la para rolar a partir do seguimento visual do objeto", explica a Dra. Marilisa Guerreiro.
A jornalista Ana Carolina Dias Cáceres é uma prova de que, em muitos casos, a microcefalia não impede que o indivíduo se desenvolva de forma plena. A anomalia de Ana deu-se por um fator genético. Ela nasceu com cranioestenose, o que tornou seu crânio "fechado", impedindo que o cérebro crescesse. Ainda na infância, Ana passou por cinco cirurgias para que seu cérebro pudesse se desenvolver normalmente. "Meu pai sempre teve a preocupação de me colocar em uma escola mais acolhedora, para que eu não sofresse preconceito", lembra. "Comecei a estudar com sete anos e com nove eu lia e escrevia, mas tive convulsões até os 12 anos". Hoje com 24 anos, Ana acaba de lançar um livro, entitulado "Selfie: Em Meu Autorretrato, a Microcefalia é Diferença e Motivação", para contar sua história. "Tive muita sorte, mas ainda me considero a exceção da exceção", diz.
Mutirão nacional  -  Com o recente avanço dos casos de microcefalia no País, o poder público vem desenvolvendo algumas ações para garantir o atendimento clínico para diagnóstico e tratamento da doença, inclusive na rede de proteção à pessoa com deficiência. Para tratar dos bebês com a má-formação, está prevista a ampliação do atendimento do plano Viver sem Limite, com a implantação de 89 novos centros de reabilitação em todo o País, além dos 125 já existentes. 
Em janeiro, o Ministério da Saúde iniciou a divulgação e implementação da chamada Diretriz Nacional para Estimulação Precoce, voltada para bebês com microcefalia. De acordo com a diretriz,  mais de 7 mil profissionais, tanto das equipes de atenção básica quanto do atendimento especializado, devem ser capacitados para trabalhar com a reabilitação de crianças de 0 a 3 anos com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor decorrente da microcefalia. “As Diretrizes unificam o conhecimento e a conduta de atenção às crianças com microcefalia, para promover a estimulação no menor tempo possível", explica o secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Alberto Beltrame. 
Entre os diversos aspectos relacionados ao desenvolvimento neuropsicomotor da criança abordados pelas Diretrizes estão: avaliação do desenvolvimento auditivo, visual, motor, cognitivo e da linguagem, a estimulação precoce, o uso de tecnologia assistiva (bengalas e cadeiras de rodas), além de outros aspectos, como a importância do brincar e a participação da família na estimulação precoce. Na Atenção Básica, o material está sendo direcionado às Unidades Básicas de Saúde, Saúde da Família e Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASFs). Na Atenção Especializada, o público-alvo é a Atenção Domiciliar, Hospitalar, Ambulatórios de Especialidades e de Seguimento do Recém-Nascido, e Centros Especializados em Reabilitação.
Dentro do Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia, lançado no final de 2015 e que prevê maior agilidade na estruturação dessas unidades, já foram habilitados 12 centros de reabilitação. Outros 11 se encontram em fase de conclusão das obras, com previsão de término no primeiro semestre de 2016, cujo investimento na construção e compra de equipamento somam R$ 43,4 milhões. Mais R$ 25,2 milhões anuais serão destinados para o custeio destas unidades. Outros 65 serviços de reabilitação serão habilitados em Centros Especializados em Reabilitação, ampliando assim a capacidade de atendimento da rede e passarão a receber adicional de R$ 109,2 milhões por ano.
No âmbito estadual, há várias iniciativas para dar atendimento às gestantes, avaliar suspeitas e tratar casos de bebês com microcefalia. No Rio de Janeiro, por exemplo, a Secretaria de Saúde lançou um projeto voltado para o acolhimento de crianças com microcefalia e para gestantes com diagnóstico positivo para a doença. Além do acompanhamento da gravidez por meio de ultrassonografia oferecida que indique possibilidade da má-formação no feto, a iniciativa prevê a realização de consultas multidisciplinares e exames de alta complexidade, além da avaliação e indicação de tratamento pela equipe do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer (IEC), uma das principais unidades de neurocirurgia no país.
Já em Pernambuco, estado que registra maior incidência da doença atualmente (273 casos confirmados até o final de março), têm sido realizados mutirões para confirmação de microcefalia em bebês. A ação, realizada pela Secretaria Estadual de Saúde, é voltada prioritariamente para crianças que ainda não tiveram acesso a serviços de saúde específicos, com encaminhamento feito pelas prefeituras. Dez neurologistas de diferentes instituições que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), como hospitais de referência e a própria AACD, foram reunidos para as consultas. A primeira etapa é o exame neurológico, que investiga, por exemplo, a rigidez muscular e a resposta a estímulos do bebê. Também é verificado o perímetro encefálico da criança.

Serviço:
Mais informações sobre a Diretriz Nacional para Estimulação Precoce podem ser obtidas no site www. portalsaude.saude.gov.br